Sorria, você está sendo enganado

 

 

O Brasil, realmente e infelizmente, é o país da trapaça. E o pior de tudo é que ninguém sabe onde isso começou. Nem como, quando ou se algum dia vai terminar.

Até nas mínimas coisas, estamos sempre sujeitos à manipulação de informações, à distorção de fatos relevantes, a tentativas de ilusão e de falseamento da verdade. O maestro desta sinfonia de atentados mais ou menos sérios, inclusive à saúde e à segurança coletivas, não poderia ser outro senão o dinheiro, os interesses comerciais, que até contam com o apoio dos deputados e senadores (por que será?) para a aprovação de leis que enganam a população.

Uma reação até natural a isso poderia ser dizer: “Se o Brasil fosse um país sério isso não aconteceria”.

Porém, como bem definiu Yuval Noah Harari no seu livro “Sapiens: uma breve história da humanidade”, Brasil não existe. Nem Argentina, Estados Unidos, França, Rússia, Alemanha ou qualquer outro país do mundo. Todos eles são apenas criações mentais de grupos de pessoas que concordam de alguma forma que estes países existem e cooperam entre si para que isso se torne realidade.

Assim, países, moedas, leis, estruturas burocráticas e tudo o mais que não existe por si só, no mundo inteiro, não passam de mitos criados pela mente humana e suportados por grupos suficientemente organizados, fortes e grandes de indivíduos que creem neste mito e têm o poder de mantê-los. Por isso, país nenhum tem culpas ou méritos, já que nenhum país existe de fato. Se quisermos encontrar os verdadeiros responsáveis pelos problemas que possam existir, só nos resta focar nos indivíduos que criaram e mantêm cada um dos mitos mencionados.

No caso do mito chamado Brasil, só podemos focar nos indivíduos que ali vivem e mantêm este mito vivo. Eles são conhecidos como brasileiros. São eles, por omissão ou por ação direta, mas também por ignorância ou por serem bobos, que possibilitam que vários absurdos aconteçam sob seus olhos sem dar a menor importância.

Talvez considerem, mesmo, como muitos costumam dizer, que “o mundo é dos espertos”. Ou que “é assim, mesmo, não tem o que fazer”. Ou “não posso fazer nada sozinho”. Ou “quem sabe, um dia eu consiga tirar meu proveito da situação”. Ou “não vou me dar ao trabalho de reivindicar nada, prefiro ficar vendo TV e tomando minha cerveja”. E além destas, há muitas e muitas outras possibilidades.

Seja o que for, está óbvio onde o problema se encontra. Mesmo assim, apesar de poder estar malhando em ferro frio por causa do temperamento excessivamente permissivo e complacente do brasileiro (peguei leve, hein?), a seguir vamos analisar algumas questões que demonstram o pouco caso dos poderes públicos e dos agentes econômicos com a população. E, também, o pouco caso da própria população consigo mesma. Aqui fica difícil definir o que é a causa e o que é a consequência.

 

Gordura trans:

Todos sabem, ou deveriam saber, que a gordura trans (ou gordura vegetal hidrogenada) é um dos maiores venenos contra a saúde de quem a consome, causando diversos problemas e doenças, principalmente às artérias e ao coração. Pois bem, como pessoas preocupadas com a própria saúde e dos nossos familiares, sempre olhamos os rótulos dos produtos que pretendemos levar para casa em busca das informações nutricionais.

Quem quer evitar as gorduras trans, é óbvio, vai escolher aqueles produtos que tem a informação de “0” ou “não contém” gorduras trans. Então, está tudo certo. Basta seguir as indicações do rótulo para estarmos seguros das nossas escolhas.

Não! Não é assim.

Abaixo está um link que trata da legislação sobre a gordura trans no Brasil, a RDC 360, de 23/12/2003, da ANVISA. Mas antes de acessá-lo, é bom colocar na cabeça aquele chapéu que os bobos da corte usavam, pois é assim que você vai se sentir. Este é o link:

https://uniclabjor.wordpress.com/2008/05/20/legislacao-sobre-gordura-trans-no-brasil/

O importante a destacar nesta norma legal, com relação ao que estamos discutindo aqui, é a seguinte frase:

“Quando o conteúdo de gorduras trans for menor ou igual a 0,2 g, a informação nutricional por porção será expressa como “zero” ou “0” ou “não contém”

Ou seja, com isso ficou legalizada a MENTIRA.

Se um produto contém qualquer quantidade de gordura trans, como pode ser permitido que se informe no rótulo que este produto “não contém” gordura trans?

É MENTIRA.

Se um produto contém até 0,2g de gordura trans, como pode ser permitido que se informe no rótulo que ele contém “0” ou “zero”?

É MENTIRA.

A lei deu respaldo para que os consumidores fossem descaradamente enganados, para que a verdade fosse escondida. Por mais boa vontade que se tenha, fica difícil encontrar alguma justificativa para que um órgão federal, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), que tem como objetivo proteger a população, emita uma autorização para toda a indústria alimentícia mentir, enganar, esconder da população a verdade sobre o conteúdo dos produtos que fabrica e coloca à venda.

A única coisa que resta quanto aos motivos da ANVISA em emitir tal norma, que favorece a mentira quanto aos ingredientes utilizados, são suspeitas de favorecimento à indústria alimentícia. Este pode ser um caso que mereça uma investigação policial para que se possa, talvez, descobrir os reais motivos que levaram a ANVISA a legalizar tamanho dano sanitário à população.

Por causa disso, todos nós consumimos este ingrediente tão nocivo à saúde. Inclusive, e principalmente, quem busca nos rótulos a informação para saber se os produtos contêm ou não gorduras trans antes de comprar. Estamos sendo enganados ao consultar as informações nutricionais de diversos produtos que falseiam o seu conteúdo com o aval do órgão que deveria ser o defensor da saúde da população. A ANVISA, neste caso, está protegendo o lado oposto, aquele que utiliza produtos que prejudicam a saúde de quem os consume e está autorizado a não informar que estes produtos são utilizados.

Muito estranho isso, não? Quem for capaz, que explique.

 

Papel higiênico com o rolo amassado:

Pode parecer cômico tratar deste assunto aqui, mas o caso mostra claramente como se desenvolve a relação entre produtor e consumidor em muitos casos.

O papel higiênico sempre foi redondo, tanto o canudo de papelão no centro quanto o próprio rolo, por um motivo óbvio: o rolo precisa girar no porta-papel quando for usado. Mas, de repente, alguém teve uma brilhante ideia: achatar os rolos para que ocupassem menos espaço.

E a indústria foi para a mídia anunciando a grande vantagem que os consumidores teriam a partir de então: precisariam de menos espaço nas suas casas para guardar os rolos de papel higiênico. Que beleza, não? É bonito ver a preocupação que os fabricantes têm com seus consumidores. Quanta consideração...

Que bom seria se assim fosse. Pena que não é. Isso não passa de enganação, de MENTIRA.

O que aconteceu, de verdade, é que os fabricantes se deram conta que, com os rolos redondos, eles transportavam ar junto com os rolos. E não ganhavam nada com este ar que ficava dentro do canudo de papelão e entre os rolos redondos que ficavam uns ao lado dos outros nas embalagens.

Foi então que resolveram achatá-los. Com isso, quase todo o espaço vazio foi eliminado, resultando que o volume transportado num mesmo espaço fosse bem maior. Para o fabricante houve ganho (economia) no transporte, pois em um mesmo frete caberia mais quantidade de produto. Num cálculo grosseiro do ganho de espaço, digamos de um terço, podemos dizer que onde se transportavam 3 rolos, passou a se transportar 4. E pelo mesmo valor de transporte.

Isso é ótimo, não? Para a indústria, certamente. E para você? O que você ganhou com isso? Quando isso aconteceu, você lembra de algum fabricante ter anunciado que reduziria o preço do produto porque conseguiu uma redução nos custos de transporte?

Claro que não! Em vez disso, vieram com a ladainha de que VOCÊ teria vantagem por precisar de menos espaço para guardar os rolos achatados. Não é de duvidar até que tenham tentado, ou pelo menos pensado em, aumentar o preço do produto por causa desta alegada falsa vantagem que você teria com a nova embalagem.

E nós nem falamos ainda que, depois de amassados, nunca mais os rolos assumem a forma circular novamente. Mesmo depois de se tentar desamassá-los, o máximo que se consegue é fazer com que fiquem mais ou menos redondos. E o consumidor que se dê por satisfeito se conseguir que os rolos não tranquem no porta-papel quando forem usados.

Mas parece que a tática dos fabricantes funcionou, pois não se vê ninguém reclamando, nem deixando de comprar os rolos achatados. Talvez os consumidores até tenham gostado desta novidade. Talvez, quem sabe, aqueles que se importem com estas “picuinhas” sejam apenas maníacos que não têm com o que ocupar as horas das suas vidas.

Ou, talvez, apenas lancem o olhar um pouco mais adiante do que aparece ou do que é mostrado. São muitos “talvez”. Talvez alguém descubra um dia.

 

Produto que some e volta com preço exagerado:

Às vezes acontece de algum produto, principalmente se tiver boa procura, sumir das prateleiras por um tempo e depois voltar com preço aumentado.

Um caso emblemático desta prática ocorreu com o detergente Limpol, da Bombril, nos supermercados Zaffari, no Rio Grande do Sul.

O preço deste detergente era R$ 0,99 a garrafa plástica de 500 ml. Então, na prateleira do supermercado, ao lado deste produto, surgiu uma nova versão do detergente em gel, que dizia ser concentrado e, por isso, pretensamente mais econômico, mas pelo triplo do preço.

Obviamente, por causa do preço, os consumidores que usavam a versão normal continuaram usando-a. Quase ninguém experimentava a versão gel “concentrada” por não ver vantagem nisso.

Então, resolveram retirar a versão normal do comércio e manter apenas a nova à venda. Realmente, quem usava a marca e não queria trocar teve que experimentar a nova versão gel “concentrada” mais cara. Porém, na verdade, esta nova versão era de qualidade inferior à versão normal. Na verdade, mesmo, era uma porcaria. Quem comprou a nova versão uma vez, não voltou a comprá-la novamente.

E assim, a marca começou a perder mercado para a concorrência, o que forçou uma mudança de estratégia. Fez-se o contrário, então: a versão antiga foi retirada das prateleiras e a versão normal voltou. Mas a sua comercialização voltou com um detalhe significativo: o preço não era mais R$ 0,99, mas R$ 1,49.

Ah, mas R$ 0,50 não é nada... Podemos até pensar assim num primeiro momento porque, realmente, se analisarmos R$ 0,50 apenas como um valor isolado, pode não representar grande coisa. Mas, relativamente ao preço que era comercializado, um valor que passa de R$ 0,99 para R$ 1,49 representa um aumento de 50%.

Exatamente! O detergente sumiu por três meses e, quando reapareceu, voltou com um reajuste de 50%.

Sem justificativa, sem explicação e sem qualquer motivo que o justificasse. Só pode ter sido mágica!

Será que isso já não havia sido planejado para acontecer desta forma mesmo? É difícil crer que haja inocentes nesta história. O mais provável é que tudo tenha sido orquestrado para promover o aumento abusivo de 50%, para o qual não haveria justificativa, sem que isso ficasse escancarado, contando com a falta de memória e de atitude e a complacência do consumidor.

 

Impostos em cascata e escondidos:

Tem quem diga que o Brasil é o rei dos impostos. Provavelmente não seja. Há países que praticam altíssimas taxas de impostos sobre a população. Porém, parece não ser possível fazer uma comparação entre o Brasil e outros países. E por um motivo muito simples e inacreditável: ninguém sabe, na verdade, quanto se paga de impostos no Brasil.

Há o impostômetro, uma ferramenta para tentar demonstrar “em tempo real” quanto o governo está arrecadando em impostos. Consiste num luminoso que vai atualizando o tempo todo um valor global que, pretende-se, seja o total de impostos pagos pelos cidadãos brasileiros ao governo. Sem dúvida, é um excelente meio de alerta e um ótimo elemento didático.

Mas não passa de um cálculo, provavelmente se fazendo uma estimativa em função do PIB de algum período passado e de seu respectivo valor correspondente em impostos. Informações, aliás, medidas e divulgadas pelo próprio governo, o que lhes tira a confiabilidade, seja por causa de eventuais segundas intenções para mascará-las ou por incompetência para apurá-las, mesmo.

Falo em incompetência, aqui, não por querer dizer que os profissionais que lidam com a questão sejam limitados em habilidades. Mesmo que possa haver os que realmente sejam limitados, esta parece ser uma tarefa impossível. Veja você mesmo. Para ter uma ideia do que representam os impostos no país, acesse o seguinte site:

https://www.portaltributario.com.br/tributos.htm

No momento em que este texto está sendo produzido o site aponta a quantidade absurda de 93 impostos diferentes existentes no Brasil, atualizados até 17/10/2018. É isso mesmo. Não é engano, não. Nem erro de digitação: são 93 impostos, mesmo, de todo tipo e esfera jurisdicional, federal, estadual e municipal. E vários deles ainda se desdobram em outros, fazendo com que o número real de impostos acabe ficando ainda maior.

Vale a pena dar uma olhada. Tem cada coisa mais esquisita... É capaz até de você dar umas risadas. Mas vai parar de rir quando se der conta que é do seu bolso que está saindo o dinheiro para custear as esquisitices. Ou, em vez disso, simplesmente para ser desviado.

Mais grave ainda é que grande parte dos impostos incidem uns sobre os outros. Isso faz com que os valores que saem dos bolsos do cidadão para os cofres do governo se multipliquem. Façamos um pequeno exercício com dados fictícios para que esta situação seja bem entendida.

Suponhamos que um artefato qualquer produzido por uma indústria tenha uma carga tributária total (impostos, taxas, contribuições, achaques, etc.) de 50%. Se a indústria vender seu produto a $ 100,00, pagará $ 50,00 de tributos.

Suponhamos que o distribuidor que o comprou por $ 100, por sua vez, também tenha uma carga tributária de 50% e venda o produto ao comércio por $ 200,00. Os tributos do distribuidor serão de $ 100,00, sendo que, deste valor, $ 25,00 é imposto calculado sobre o imposto do fabricante, que foi para o preço do produto.

Então, o comerciante que o comprou por $ 200,00 também teria uma carga tributária de 50% e vende o produto ao consumidor por $ 400,00. Vai pagar $ 200,00 de tributos, sendo que, deste valor, $ 75,00 representa os impostos sobre os impostos pagos pelo fabricante e pelo distribuidor.

E assim, os tributos vão como que dando cria, uns gerando outros, e todos tendo que desembolsar.

Por exemplo, os impostos cobrados nos combustíveis fazem parte do preço frete, que vai para o valor das matérias primas transportadas. Os impostos sobre a compra das matérias primas, que já tem os valores dos tributos do frete, vão para o preço final do produto industrializado. Os impostos sobre a compra dos produtos pelo comerciante vão para o preço final de venda que, por sua vez, também vai ser tributado outra vez.

E sabe quem paga tudo isso? É você... Somos todos nós, consumidores finais. E para comprar estas coisas e pagar estes tributos, usamos o dinheiro que sobra depois de descontados todos os impostos, contribuições e taxas da nossa folha de pagamento.

Mas não há problema, pois, apesar de sermos um dos povos mais tributados do mundo, temos serviços públicos de qualidade indiscutível, não é, mesmo? Ninguém tem receio de sair à rua, seja a hora que for, pois estamos sempre em segurança. Também precisaríamos de poucos hospitais, pois o serviço público de saúde funciona tão bem que quase ninguém fica doente. E os que adoecem são atendidos tão prontamente e com tanta eficácia que dificilmente terão qualquer problema ou sofrimento.

Das escolas, então, não há o que reclamar de tão bem que funcionam, formando crianças e jovens preparados para a vida em todos os sentidos. Nada a reclamar também, principalmente, dos nossos representantes nas câmaras e assembleias, que usam o nosso suado dinheiro única e exclusivamente para nos proporcionar uma qualidade de vida cada vez melhor.

Pois, é! E então, ao sair do País das Maravilhas por um buraco no chão, Alice encontrou na sua frente um morador de rua desdentado, desmilinguido e sarnento que, rindo e com a boca escancarada, lhe disse:

─ Sorria, você está sendo enganada.

 

Custo Brasil:

No tópico anterior, falamos dos impostos insanos que existem no Brasil. Não só insanos, mas exagerados em quantidade e em volume financeiro. Este é um forte componente do chamado “Custo Brasil”, como se convencionou chamar uma série de fatores que prejudicam a economia como um todo e fazem os preços de tudo serem muito maiores do que precisariam se estes componentes não existissem.

Isso significa que, se alguém pretender se aventurar em alguma atividade profissional, seja produção, comércio ou serviços, mesmo antes de assumir qualquer compromisso financeiro o empreendedor já terá uma parte de suas finanças comprometida previamente com a sustentação de uma estrutura estatal e legal gigantesca, burocrática, ineficiente e caríssima. Não vamos voltar a falar de impostos novamente. Mas de coisas que causam a existência desta rede absurda de tributos que vigora no país.

Justamente por causa da imensa rede de impostos criada no Brasil, é necessário que as empresas mantenham, pelo menos, uma estrutura contábil voltada exclusivamente para lidar com a questão tributária. As grandes empresas têm suas próprias estruturas. As menores contratam escritórios especializados no assunto.

Mas nenhuma empresa pode deixar de investir (gastar) dinheiro com isso, sob pena de ter que gastar muito mais depois se deixar de cumprir com alguma determinação legal referente às “contribuições” tributárias que lhe são impostas. Se a estrutura tributária fosse mais simples, com menos impostos, tudo funcionaria melhor tanto para o ente público na sua função de arrecadação e fiscalização, quanto para o ente privado na sua obrigação de recolhimento do tributo.

Porém, o emaranhado da rede tributária obriga o empreendedor honesto a manter custos que, se não fosse por causa da complicação, poderiam ser desnecessários para cumprir o que a lei determina. E, ao mesmo tempo, também favorece o desonesto a praticar a sonegação do que deveria pagar por causa da excessiva regulamentação e da dificuldade de fiscalização.

Geralmente, o “custo Brasil” do qual se costuma falar está relacionado à questão tributária. E, também, à legislação relacionada ao trabalho, mas não vamos entrar no mérito quanto a isso devido a posicionamentos extremados tanto de um lado como de outro da questão. Empregadores gostariam de ter escravos trabalhando nas suas empresas e empregados gostariam de ter todos os privilégios possíveis. Deixemos esta questão para que os envolvidos negociem seus termos, como deve acontecer entre seres civilizados.

Até porque, se focarmos a atenção nisso, não vamos conseguir enxergar algo que é fundamental neste assunto, mas que vários interessados diretos não gostariam que fosse discutido. Então, contrariando a estes, seria interessante se analisássemos outra questão: para onde vai boa parte do dinheiro recolhido em impostos?

Todos conhecem a estrutura política existente no Brasil. São senadores, deputados federais, deputados estaduais, vereadores, governadores, prefeitos, presidente, ministros. E todo mundo reclama dos altos valores que são pagos a eles. Mas isso não é nada. Se fossem só eles, daria para dar risada.

O maior problema é que cada um destes nomeia dezenas de outros que recebem quase o mesmo que eles. Às vezes centenas, dependendo do poder do cargo. Na prática, o que ocorre é que, para cada um que é eleito, 20, 30, 50, 200 ou 1000 outros vão de carona para as folhas de pagamento públicas. E todos sabem que a maioria destes cargos não são necessários, nem produzem qualquer coisa. Aliás, produzem. Produzem rombos cada vez maiores nos cofres públicos.

Para se ter uma ideia do descalabro, basta ver as constantes denúncias que surgem de gabinetes de políticos eleitos que vivem vazios, sem aparecer quase ninguém para trabalhar, mesmo tendo tanta gente contratada. Se todos resolvessem aparecer ao mesmo tempo, nem caberiam ali. É uma estrutura gigantesca e irreal.

São gabinetes vazios disso e daquilo. Assessores ausentes às pencas. Conselheiros de todo tipo que se reúnem duas vezes por ano para nada resolverem ou aconselharem. Representações de todo tipo que nada representam. Comitês que não têm qualquer função prática real. E por aí vai...

Mas todos eles, sem exceção, têm uma coisa em comum: estão representando seu papel neste imenso teatro do absurdo e recebem no final do mês o pagamento. Se fizeram o seu trabalho ou não, se o fizeram bem ou não, se compareceram ou não, nada disso importa. O importante é estar nomeado no elenco (empossado no cargo público). É só o que conta.

O resultado disso é que existem dez ou quinze pessoas contratadas para executarem um serviço no qual seriam necessárias duas ou três. E o pior é que quanto mais gente existir para desempenhar uma função, em vez de umas ajudarem as outras, umas acabam atrapalhando as outras, fazendo com que os prazos e a qualidade do serviço público se apresentem com as deficiências que qualquer um pode constatar em qualquer órgão público.

Quando se olha o quadro político deste ponto de vista fica mais fácil entender porque um candidato, para se eleger, gasta numa campanha dezenas de vezes o que vai receber durante o mandato. Na verdade, não é o candidato que gasta, mas o partido. E o interesse do partido não é propriamente a eleição do candidato, mas a nomeação das dezenas ou centenas de filiados para algum cargo público em consequência da eleição do candidato. Caso consiga a eleição do candidato, o partido pode receber em poucos meses tudo o que gastou na campanha e continuar recebendo isso durante todo o mandato do candidato eleito. Ou seja, multiplica muito o valor gasto graças à estrutura que existe justamente para favorecer este tipo de prática.

É como se houvesse uma carniça (o serviço público) e o bando de urubus (a classe política) se servindo à vontade. O quadro é forte? É deselegante? Pode ser. E até é melhor que seja, mesmo. Quem sabe, assim, este povo abestalhado acorde...

Não. Isso não vai acontecer porque ninguém que faz parte do povo abestalhado vai estar lendo isso. Você, só por estar aqui lendo isso agora, faz parte de uma elite na sociedade brasileira.

Que legal, né? Não, não é. Você faz parte da elite só porque consegue ler uma frase ou um parágrafo e entender o que leu. Isso é muito triste.

Que esperanças podemos ter na nossa capacidade de construir uma sociedade justa, pelo menos isso, se a maioria não consegue se dar conta das injustiças que sofre o tempo todo? Se não consegue enxergar o que está logo ali à frente, como se estivesse sempre no meio de um nevoeiro? Se precisa sempre que surja um “salvador da pátria” para resolver todos os seus problemas? Se, para desempenhar o papel de cidadão, mais se parece com um zumbi que anda para lá e para cá sendo levado a cabresto sem sentir?

É triste, muito triste, mas não há como não constatar que o maior “custo Brasil” existente é o próprio povo, que apenas assiste a tudo e só reclama da boca para fora, sem tomar qualquer atitude concreta.

Assim, fica muito fácil que poucos enganem a tantos por tanto tempo.