Autoinfidelidade

Miguel e Júlia formam um casal bastante animado, mesmo estando casados há vários anos. O tempo não murchou o tesão que um sente pelo outro. Eles acham que é porque estão sempre prontos para novidades que possam apimentar a relação. São bastante criativos neste sentido. Mas um destes “surtos criativos” pode trazer sérias consequências para o relacionamento deles.

Um dia, Miguel está sentado no sofá, lendo um livro tranquilamente, e Júlia entra na sala com um espanador de pó numa mão e um pano na outra. Até aí, nada de mais, pois estaria cuidando dos afazeres de casa.

Porém, ela está usando uma minissaia, que seria melhor chamar de micro, justíssima, que deixa suas belas pernas completamente à vista. Pois ela para em frente a Miguel e fica de costas para ele, como que limpando uma estante, com movimentos lentos e propositalmente provocantes. Ela se abaixa, fica na ponta dos pés para alcançar lugares mais altos e se inclina para alcançar o fundo móvel.

Desde que ela entra na sala, Miguel se desconcentra da leitura e fica olhando-a por sobre os óculos, quase sem se mover, apenas apreciando o “espetáculo”. Até que Júlia se vira e fala para Miguel:

─ Bom dia, Seu Miguel. Eu sou a Zefa. Sou a nova diarista. A minha função nesta casa é deixar tudo muito certinho, muito limpinho, pra que todo mundo fique muito feliz.

─ Muito prazer, Zefa. Eu já estou ficando muito feliz com a sua vinda à minha casa... ─ Responde Miguel entrando na brincadeira.

─ Então, bom! Com licença, que eu tenho que continuar meu serviço.

E ela se vira de costas novamente e começa a se remexer, continuando a provocação. Miguel joga para o lado o livro que estava lendo e parte para cima de Júlia. Ou melhor, de Zefa. Abraça-a por trás, com uma mão entre as suas coxas, com a outra em seus seios e com a boca no seu pescoço.

─ Ai, Seu Miguel! O que é isso? O senhor me atacando deste jeito... Socorro... ─ Ela falava quase sussurrando.

─ Não era para deixar todo mundo feliz? Então, estou muito feliz com você!

─ E a Dona Júlia? O que ela vai achar disso?

─ Ela também vai ficar muito feliz. Eu garanto. Acho que é ela quem vai ficar mais feliz nesta história!

─ É?

─ É. Vem...

E Miguel arrasta Júlia, ou melhor, Zefa, para o quarto e os dois se amam intensamente durante o resto do dia. Mesmo para um casal que sempre teve o fogo da paixão aceso, a experiência daquele dia havia sido marcante. Entre todas as fantasias que os dois já haviam inventado, aquela era a que acendia mais a vontade de ambos.

Tanto que passam a brincar daquilo com bastante frequência. Com tanta frequência que Júlia começa a se sentir incomodada. Tecnicamente, nestas horas ela está sendo outra. E assim, já não sabe se seu marido se interessa mais pela outra do que por ela mesma.

Então, Júlia chama Miguel para uma conversa, expõe seus sentimentos e propõe acabar com aquela brincadeira. Miguel a apoia e diz que entende a situação. E diz que ela não precisa se preocupar, pois para tudo tem um jeito.

Júlia achou muito carinhosa a atitude dele. Só não entendeu o leve sorriso que Miguel esboçava ao final da conversa.

No dia seguinte, Miguel sai cedo de casa. Duas horas depois, toca a campainha. Júlia vai atender e encontra uma surpresa à sua porta:

─ E aí, Madame. Bom dia. Eu sou o Zé, o ôme da Zefa.

Júlia não sabia se ria ou se ficava brava. A figura à sua frente era Miguel vestindo uma camiseta listrada, de chapéu tipo panamá e sapato de duas cores, encostado com o ombro junto ao marco da porta. Talvez estivesse tentando encarnar um malandro de décadas atrás.

─ E aí, Madame, vai ficá quieta aí, que nem estauta? Pô, te contá, não é mentira o que a Zefa fala sobre tu. Tu é uma gatona mesmo... Agora que eu entendi porque ela não queria que eu viesse aqui.

Júlia ria com a encenação de Miguel e resolveu entrar na brincadeira para ver o que podia acontecer. Uma nova fantasia sempre mexia com ela.

─ Pois não, Seu Zé. O que o Senhor deseja?

─ Eu só queria falar com a Zefa. Quer dizer, isso até eu ter visto a Senhora. Agora eu já nem sei mais o que eu quero. A Zefa aí? A Senhora sabe que aquela cachorra sumiu? Já faz um tempão que ela não aparece no meu cafofo! A Senhora pode chamar ela, se isso não for atrapalhar?

─ Ah, o Senhor quer falar com a Zefa? Entre. Sente-se e espere um pouco. Eu vou chamá-la.

Alguns minutos depois, Júlia chega produzida como Zefa, com a saia curtíssima, já esculachando com o Zé.

─ Qual é, cara? Eu te disse que não era pra pintar por aqui! Qué azará o meu trampo? O que é que tu qué?

─ Pô, Zefa, não me maltrata assim... Eu tô loco de saudade de tu. Até parece que já me esqueceu. E as nossas noitadas também. Já faz um tempão que a gente não se enrosca gostoso, como só a gente sabe.

─ E tu acha que eu à disposição? Que é só chegá e me arrastá? Não é não!

Tu sabe que o que eu tenho pra te oferecê é só eu mesmo. Que eu bronco, selvagem, sem frescura. Mas eu sei que nenhum playboy vai te dá o que tu qué. Então, vamo pará de perdê tempo. Vamo aproveitá que a tua patroa saiu. Me mostra a parte íntima da casa e vamo fazê umas selvagerias.

Júlia, ou melhor, Zefa, arregala os olhos e abre um sorriso enquanto Miguel, ou melhor, Zé, agarra-a no colo e a leva para dentro. As próximas horas foram uma experiência diferente para o casal. Encenando os personagens, deixaram de lado qualquer resquício de pudor que poderia haver e acabaram se entregando por completo um ao outro, como se relembrassem uma primitividade que nunca haviam vivido.

Depois desta primeira vez, Júlia e Miguel, ou melhor, Zefa e Zé, ainda se encontraram muitas vezes. Sempre com satisfação.

Mas Júlia começa a notar que Miguel está perdendo o interesse por ela. Ela sente que ele demonstra mais excitação pela Zefa, como Zé. Desde o início, Júlia se esforçava para separar a personagem da pessoa. Tentava fazer como se quando Zé e Zefa se relacionassem, isso fosse uma coisa deles. Mas é impossível atuar sem se misturar com a personagem.

Tal situação causou uma grande confusão na sua mente, a ponto de já nem saber direito quem ela realmente era e com quem ela e o seu marido estavam se relacionando. Então, Júlia pede um tempo para Miguel para pensar sobre o relacionamento e entender o que está acontecendo. Ela faz uma mala e vai para a casa da sua mãe para poder pensar com calma e sem a pressão de Miguel.

Sozinho em casa, sem saber o que fazer, Miguel liga para Raimundo. Dos seus amigos, ele era o mais centrado, o mais lúcido, ideal para desabafar e se aconselhar. Raimundo tinha um compromisso, mas passaria na casa de Miguel antes. Os dois se encontram mais tarde e Miguel conta o que aconteceu e o desfecho das suas aventuras.

─ E é isso, Raimundo. Agora, Júlia está na casa da mãe, pensando que eu não tenho mais tesão por ela e que estou traindo-a com ela mesma, ou com uma personagem que ela representa. Nunca pensei que a nossa brincadeira pudesse chegar a tal ponto! E agora? O que eu faço?

─ Meu amigo, vocês brincaram com fogo e acabaram se queimando! ─ Raimundo dá uma gargalhada. ─ Vocês esqueceram, ou não se deram conta, que estavam lidando com o inconsciente, com as fantasias mais profundas que vocês têm. E acharam que iam sair ilesos disso...

─ Nós nunca imaginamos que as nossas brincadeiras pudessem causar tamanha confusão. Era tão gostoso...

─ Como uma traição, não é mesmo?

─ Não! Éramos nós mesmos! Sempre fomos nós...

─ Era vocês, mas como se fossem outras pessoas. Cada um de vocês se relacionando com outra pessoa que não era nenhum de vocês.

─ É! Pode ser.

─ E nesta história, quem está em vantagem é você.

─ Como assim?

─ Você, no papel de Miguel, transava com Júlia. E depois, ainda como Miguel, transou com Zefa. E depois, já no papel de Zé, também transou com Zefa. Enquanto isso, Júlia só transou com Miguel e Zefa só transou com Zé.

─ Hein?

─ Não entendeu? Miguel e Júlia são um casal e Zé e Zefa outro. Mas você, Miguel, transou com Zefa. E assim, traiu Júlia. E traiu também o Zé!

─ Mas, Raimundo, éramos eu e ela sempre!

─ Psicologicamente, não. Cada um de vocês era quem vocês estavam representando. E é dos relacionamentos que vocês criaram que vêm os sentimentos que estão causando toda esta confusão.

─ Será...?

─ Com certeza.

─ O que eu faço, Raimundo? Como posso consertar esta situação?

─ Eu só vejo uma solução para o caso de vocês: é preciso empatar o jogo.

─ Empatar o jogo? Como assim?

─ Ora, você está em vantagem. Você traiu Júlia com Zefa. Ela só conseguirá superar isso se trair você também. Aí o jogo fica empatado.

─ Você enlouqueceu, Raimundo? Eu nunca a traí! E nunca iria admitir que ela me traísse!

─ Então, já era! Pode perder as esperanças. Ela não vai querer voltar para você se estiver em desvantagem.

─ Será...?

─ Bom, acho que já ajudei no que eu podia. Agora tenho que ir. Pense nisso. Espero que encontre uma saída.

Raimundo deixa Miguel, que fica tentando imaginar uma maneira de consertar a situação. Mas acaba desistindo. Parecia que não havia jeito. Então decide ir dormir.

No dia seguinte, Miguel acorda com uma ideia meio maluca, mas que pode funcionar. Logo no início da noite, procura Júlia. Bate à porta e é atendido pela sogra, que se espanta com o que vê. Embaraçado, Miguel pede a ela que chame Júlia.

─ Quem era, mãe? ─ Pergunta Júlia quando sua mãe retorna.

─ Olha, filha... Tem uma coisa muito estranha acontecendo. Eu sempre lhe disse que o Miguel não me parecia muito bom da cabeça...

─ Mas que Miguel? E eu quero lá saber de Miguel? Deixa ele lá com suas fantasias...

─ Pois, é! Mas é ele quem está lá na porta! E quer falar com você...

─ Não pode ser! Eu avisei a ele que queria um tempo e não queria que me procurasse. ─ Júlia acha que Miguel não está respeitando seus sentimentos.

─ Olha, filha... É melhor você ir lá falar com Miguel. Ele não parece estar bem.

─ Como assim, mãe? ─ Júlia começa a se preocupar achando que sua saída de casa talvez pudesse ter causado um trauma em Miguel.

─ Ele está com um jeito esquisito, com umas roupas esquisitas... Vá lá e veja o que está acontecendo. Eu vou ficar por perto. Se precisar de alguma ajuda, é só gritar!

Agora Júlia está realmente preocupada. Fica tentando imaginar o que pode ter acontecido com Miguel enquanto se dirige à porta quase correndo. Para sua surpresa, encontra Miguel vestido de Zé, recostado ao marco da porta. Ou seja, não era Miguel, era Zé. Mudando seu estado de espírito de preocupação para indignação, Júlia já chega fuzilando:

─ Era só o que faltava! O que você quer? Veio atrás da Zefa? Ela não está! Vá procurá-la nos quintos dos infernos!

─ Não quero nada com a Zefa, não! Não quero saber daquela vacilona! Vim atrás de tu, Princesa. Desde que te vi, eu não consigo pensar noutra coisa. Eu quero é tu, minha deusa. Vem pro meu altar, pra eu poder te adorar! Vem...

Júlia começa a rir, como se estivesse assistindo a uma comédia. Custa-lhe crer que Miguel estivesse se prestando àquele papel ridículo de querer lhe seduzir se passando pelo Zé. E, ainda mais, com cantadas de tão baixo nível.

Mas, vendo que Júlia mudou seu ânimo, Miguel, ou melhor, Zé, continua, desta vez falando com sentimento.

─ Aí, Princesa! Eu só queria uma chance pra te mostrar que eu posso te fazer feliz. Que eu nunca vou te abandonar. Que o meu amor por ti é maior do que as músicas do Roberto Carlos.

Junto com uma risada pelas bobagens que Miguel falava, ou melhor, Zé, uma lágrima de emoção correu do canto do olho de Júlia por saber que aquilo era sincero. Mesmo assim, ela manteve a linha dura.

─ Miguel, ou Zé, é melhor procurar a Zefa. Não era ela a interessante? Eu não estou aí disponível para quando você me quiser e depois me descartar.

─ Princesa, eu já disse: a Zefa é passado. Foi um rio que passou em minha vida! Nunca mais quero saber dela. Agora, é só tu que preenche meu pensamento. É só contigo que eu quero passar o resto da minha vida. Tu é a rosa que falta pra completar meu buquê. Tu é o recheio do meu sonho. Tu é...

Júlia interrompe as bobagens que Miguel está falando atirando-se contra ele e beijando-o. Ela sabia que, apesar de estar interpretando outro, as palavras de Miguel eram verdadeiras e diziam o que ele estava sentindo. Então, ela aceita sair com Miguel, ou melhor, com Zé.

Começam percorrendo bares e boates e terminam num motel. Passam uma noite ótima. No dia seguinte, ela resolve voltar para sua casa e retoma sua vida com Miguel.

Mas eles não falam sobre a saída de Júlia com Zé. Nada combinaram sobre isso. A coisa ficou como se Miguel não soubesse. Só para manter o mistério. Como se Júlia tivesse apenas saído de casa, pensado melhor e resolvido esquecer aquela história.

A partir de então, pelo menos uma vez por semana, Miguel avisa Júlia que vai precisar viajar a trabalho e só volta no dia seguinte. Logo em seguida, Zé liga convidando-a para saírem para mais uma noitada.

E, a cada vez que Júlia aceita sair com Zé, Miguel pensa como seu personagem:

─ “Hoje eu se dei bem...”.

 


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