Conflito de classes

Dona Maria Helena é uma jovem senhora, rica, que circula na alta sociedade da sua cidade nos mais variados eventos. Ela faz questão de ser chamada sempre pelos seus dois nomes iniciais. Nem Maria, nem Helena, mas Maria Helena. Dizem que isso é coisa de gente chegada a chiliques. Mas ela não liga. Aliás, ela não está nem aí para o que os outros pensam.

 Mas detesta ser chamada de “Dona”. Porém, era assim que Creusa a chamava. Creusa era uma empregada doméstica que Dona Maria Helena fazia questão de dizer que era a sua “Secretária do Lar”. Dá mais status.

E não adiantaram as reclamações de Dona Maria Helena com Creusa quanto a isso. Ela não conseguia tratar a patroa de forma diferente.

Então, Dona Maria Helena, magnanimamente, concedeu o direito a Creusa, e só a ela, de poder tratá-la por “Dona”. Já havia deixado de se incomodar com isso, pois Creusa era muito importante na sua vida. Nunca havia conseguido alguém que organizasse sua casa tão bem, seguindo exatamente suas orientações.

Até mesmo o fato de Creusa não saber pronunciar o seu sobrenome já havia sido deixado para segundo plano. Quando Creusa tentava falar “Magalhães”, saía palavras parecidas com “Magalhões”, “Magalhans”, e outras coisas, mas nunca o sobrenome certo. Não tinha jeito... Por causa disso, Dona Maria Helena já havia proibido Creusa de atender o telefone.

Mas, sem problemas. Dona Maria Helena acredita que, às vezes, justifica-se sacrificar uma tropa numa batalha para poder ganhar a guerra. E assim, tolerava esses pequenos contratempos causados pela Creusa em prol do bem maior: um ambiente adequado na sua casa para o conforto e o bem estar de sua família.

O importante era que a casa e a sua rotina iam muito bem sob os cuidados de Creusa. Ela era tão competente que, de vez em quando, alguma das amigas de Dona Maria Helena manifestava interesse em contratá-la se, um dia, fosse dispensada.

Creusa dava atenção a todos os detalhes que estavam sob sua responsabilidade. Inclusive à mania de Dona Maria Helena. Como todo ser humano normal, ela, claro, também tem suas anormalidades. No seu caso, é uma fixação, um tipo de fetiche: seus sabonetes franceses. É quase uma devoção, algo beirando o sagrado.

Pelo menos três vezes por ano, Dona Maria Helena viajava a Paris e se abastecia com os sabonetes que gosta de usar nos seus banhos. Claro que não é só por causa dos sabonetes que ela viaja à Europa, mas esta é a desculpa oficial, que, com o tempo e com o costume, tornou-se inquestionável.

De qualquer forma, Dona Maria Helena nunca admitiria usar no seu corpo outros sabonetes. Ela costuma afirmar que os óleos e substâncias puríssimos que eles contêm, seguindo fórmulas consagradas, criadas por grandes mestres há muito tempo, têm o poder de renovar e conservar a beleza de sua pele como nenhum outro produto seria capaz de fazer. Esta é a sua verdade. E, até hoje, ninguém foi louco o suficiente para contestá-la.

Pois seria justamente a fixação de Dona Maria Helena pelos seus sabonetes o que acabaria causando um estremecimento nas suas relações com Creusa.

Um dia, quando entrou no banheiro de sua suíte, Dona Maria Helena encontrou Creusa fazendo a limpeza do local e viu que, em vez de colocar o resto de um dos seus sabonetes no lixo, guardou-o num saco plástico. Era o final do sabonete, aquele pedaço fininho, que mal daria para ser usado um pouco mais.

Dona Maria Helena ficou intrigada com a atitude da sua “Secretária” e questionou-a sobre aquilo.

─ Creusa, o que você está fazendo? Por que está separando a sobra do sabonete do resto do lixo?

─ Ah, Dona Maria Helena, eu nunca que poderia ter um sabonete desses na minha vida... Então, eu aproveito o restinho que sobra.

─ Mas isso não dá mais para ser usado, de tão fino que está.

─ Eu não uso assim, Dona Maria Helena! ─ respondeu cheia de orgulho e sabedoria. ─ Eu pego um pedacinho fininho, molho, junto com outros pedacinhos fininhos e eles ficam colados. E aí, eu consigo fazer um sabonete igual ao que a Senhora usa. Não é bem igual, mas é quase.

Dona Maria Helena ficou de boca aberta olhando para Creusa, que achou que estava sendo admirada pela sua esperteza.

─ A gente é simples, mas se vira, né? Com licença, Dona Maria Helena, que eu tenho que continuar meu serviço.

Creusa saiu do banheiro e Dona Maria Helena ficou por ali sem reação, como que anestesiada pela surpresa, pelo inesperado. Um turbilhão de pensamentos passava por sua mente.

Começou a imaginar Creusa tomando banho na sua casa, usando as lascas dos seus sabonetes que foram coladas umas às outras. E os pensamentos foram se emendado sem controle.

─ “Como será o banheiro da Creusa? Meu Deus, como será a casa da Creusa? Será que ela mora numa casa? Ou num barraco? Nem sei direito onde ela mora! Meus sabonetes franceses.... Para onde ela os leva quando estão terminando? Coitados...”

Sua surpresa foi tão grande que ficou vários minutos envolvida com suas inquietações. Nunca poderia imaginar que o fim dos seus sabonetes seria em alguma casa simples, como ela achava que devia ser a casa de Creusa. Para ela, era como enterrar um defunto nobre em uma vala rasa e sem identificação. Um fim indigno.

Durante o resto do dia, Dona Maria Helena tentou evitar o contato com Creusa. Cada vez que a enxergava, visualizava seus sabonetes percorrendo o corpo da empregada. Imaginava Creusa até em posições indecentes com seus preciosos sabonetes franceses.

Aquela noite foi difícil para Dona Maria Helena. Demorou bastante para pegar no sono, enquanto mil pensamentos vinham à sua mente.

Pela primeira vez na sua vida, uma situação provocou nela reflexões sobre questões sociais, onde uns são mais e outros são menos favorecidos. Pela primeira vez, pensou nas dificuldades que a maioria da população passa por não ter os devidos recursos. Pela primeira vez, com sinceridade, tentou se colocar na posição do outro.

Tentou se imaginar na casa de Creusa, que, achava, devia ser pobre, no ônibus que ela pegava todos os dias para ir e voltar do trabalho, chegando em casa após o trabalho e indo para o banho...

─ “O banho... Meus Deus, o banho... Meus sabonetes... Quanto sacrilégio...”

Mesmo com seus pensamentos e sentimentos direcionando-a para a solidariedade, para a comunhão, quando Dona Maria Helena lembrava dos seus sabonetes franceses, eram só eles que importavam. Nada mais restava.

Mesmo depois de ter conseguido dormir, seu sono foi bastante agitado. Chegou a sonhar que estava em Paris comprando seus sabonetes. Mas, cada vez que entrava em uma das suas lojas favoritas, alguém já havia estado lá um pouco antes e comprado todos os sabonetes em estoque. Até que Dona Maria Helena, já em desespero, descobre quem estava acabando com seus sabonetes.

Era Creusa! Agora, ela estava assombrando até os seus sonhos!

Quando amanheceu, Dona Maria Helena já estava acordada. Ainda pensando sobre a situação que a incomodava, resolveu tomar uma atitude.

─ “Vou resolver isso já e de uma vez por todas. Já sei o que fazer.”

E saiu antes que os empregados da casa começassem a chegar. Principalmente Creusa. Voltou só no meio da tarde e procurando por Creusa. Tinha um sorriso largo no rosto e havia recuperado sua costumeira jovialidade.

─ Creusa, venha cá, querida. Preciso falar com você. ─ Agarrou as mãos de empregada antes de continuar. ─ Você sabe o quanto eu gosto de você e do seu trabalho. Você trabalha comigo há anos e sempre nos demos muito bem, não é mesmo?

─ É, Dona Maria Helena... Mas essa conversa está meio estranha. Aconteceu alguma coisa? Eu fiz algo errado?

─ Aconteceu, sim, Creusa. Mas, para você, é uma coisa boa.

─ E pra Senhora? Não é?

─ Não é de mim que estamos falando. É de você. Você não gostaria de ganhar mais? Digamos, o que você ganha hoje e mais a metade?

─ Claro que sim! A Senhora vai me dar um aumento?

─ Calma! E você não gostaria de trabalhar mais perto da sua casa?

─ Depende, né? ─ Creusa está meio desconfiada do rumo da conversa. ─ Pra isso eu vou ter que deixar de trabalhar com a Senhora? A Senhora está me dispensando?

─ Não, Creusa. Não é assim. Eu só estou pensando no seu bem. Depois de tanto tempo trabalhando comigo, de tanta dedicação, acho que você merece melhorar de vida. Eu estava na casa de Carol e ela me fez esta proposta. ─ Na verdade, Dona Maria Helena havia oferecido sua “Secretária” à amiga, que aceitou na hora. ─ O que você acha?

─ Puxa! Gosto muito de Dona Carol.

Creusa disse isso só para ganhar tempo para poder pensar. O dinheiro a mais era muito bem-vindo. E o tempo perdido no ônibus todos os dias seria a metade. Era uma oferta tentadora. Mas havia uma questão: os sabonetes! Será que Dona Carol também usava os mesmos sabonetes franceses de Dona Maria Helena?

Na dúvida, Carol fez sua contraproposta.

─ E a Senhora não poderia me pagar o que Dona Carol está oferecendo? Assim, eu poderia continuar trabalhando com a Senhora.

─ Infelizmente, não tenho como cobrir a oferta da Carol. Veja bem, Creuza. Uma oportunidade dessas não é todo dia que aparece. É a sua chance de dar um salto na vida.

─ Mas, e a Senhora? Como a Senhora vai ficar?

A estas alturas, as duas estavam abraçadas, chorando. Discretamente, Dona Maria Helena aproveitou a oportunidade para tentar sentir o perfume do seu sabonete em Creusa. Não, Creusa não estava perfumada. “Ainda bem!”, pensou.

─ Não se preocupe comigo, Creusa. Eu vou dar um jeito. Pense em você agora.

Creusa pensou mais um pouco e concluiu que, com o dinheiro que ganharia a mais, até poderia se dar ao luxo de importar alguns sabonetes franceses para satisfazer o fetiche que havia adquirido da sua patroa. Então, resolveu aceitar a proposta. Dona Maria Helena a incentivou a arrumar suas coisas e assumir imediatamente suas novas funções na casa da sua amiga.

Depois que Creusa saiu, Dona Maria Helena sentiu que havia ficado como que um vazio no ambiente. Era algo vago, mas notório. Não seria fácil conseguir alguém como Creusa para o trabalho doméstico.

Mas Dona Maria Helena não conseguiria conviver com alguém que usasse os restos dos seus preciosos sabonetes franceses, que para ela eram uma espécie de símbolo de status, de luxo, até de ostentação social. Ainda mais se fossem usados por alguém que pertencesse a um nível social tão inferior ao seu. Era inadmissível para ela. Quase uma afronta.

Aliviada por ter resolvido a situação de uma forma que ficou bom para ela e para Creusa, Dona Maria Helena resolveu curtir aquele momento da melhor maneira possível: iria tomar um bom banho, bem demorado, na companhia dos seus sabonetes franceses.

Depois deste episódio, a experiência valeu para Dona Maria Helena, que não deixa mais ninguém tocar nos seus sabonetes. É ela mesma quem dá conta das lascas finas que sobram. Mas ninguém sabe o que ela faz com as sobras.

O curioso é que, desde então, as viagens de Dona Maria Helena à Europa se tornaram menos frequentes. Há quem diga que, agora, ela cola os restos de seus sabonetes uns nos outros para durarem mais.

 


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