Teleguiados

 

Zoinho, sentado na mesa do bar, brinca distraído com as bolachinhas de papelão que vêm com cada copo de chope. Está tão entretido com seus pensamentos que só vê a chegada de Caíco e de Pardal quando eles sentam cada um ao seu lado na mesa.

Pardal ganhou este apelido em comparação ao Professor Pardal, personagem da Disney que representa um inventor meio atrapalhado. Por causa do seu jeito meio esquisito e aéreo, todo mundo acha que ele tem vocação para cientista, mas nunca fez nada que justificasse isso. E Caíco, bem, nem ele mesmo sabe explicar.

Os três são meio estranhos, se analisados conforme o que se espera para jovens de vinte e poucos anos. Por isso, não fazem parte de nenhuma galera. Nem querem, também. Acham os papos dos outros muito chinfrim, muito nada a ver, muito sei lá, entende? Em resumo, sem conteúdo. Eles preferem uns papos mais cabeça.

O mais estranho deles é Zoinho. Ele tem os olhos saltados, por isso o seu apelido, e um cabelo com vontade própria, que insiste em manter comprido, mesmo sem conseguir ajeitar. Isso lhe dá um ar meio amalucado, que acabou virando a sua marca registrada.

─ E aí, Zóio. Pensando na vida? ─ Pergunta Caíco. Os mais íntimos também o chamam de Zóio.

─ É, gente... Na vida! E sabem o que eu descobri? Que todos nós somos teleguiados. Existe uma programação mental inconsciente que é dirigida a todos nós diariamente. Nós não conseguimos percebê-la porque ela é sutil. Mas funciona...

Caíco e Pardal se olham desconfiados. Nunca se sabe o que pode sair daquela cabeça!

─ E só funciona porque a ignoramos, não nos damos conta da manipulação mental e emocional que nos é enviada. Porque, em última análise, abrimos mão de assumir o controle da própria vida.

Caíco e Pardal se recostam na cadeira. Antes de Zoinho continuar, chamam o garçom e pedem um chope para cada um para poderem acompanhar o assunto em pé de igualdade.

─ Há uma tendência geral de se valorizar o que outros dizem, fazem ou pensam. E não é por falta de capacidade. É muito mais por preguiça de construir conceitos próprios e lutar por eles. Para quem não quer ter o trabalho de pensar, fica mais fácil deixar que outros pensem por ele. Fica mais fácil deixar que os conteúdos da mídia comandem as suas vidas. Fica mais fácil assim porque basta deixar que a mente passe as horas fixadas no que outros pensaram e decidiram para a vida de quem se entrega ao comodismo de não precisar pensar por si mesmo.

─ Ficou pesado seu raciocínio. ─ pondera Pardal. ─ Você não acha que está exagerando, não? É muito fatalismo...

─ Será? Então pense: se analisássemos os nossos gostos, as nossas predileções, as nossas reações e os nossos atos, conseguiríamos explicá-los apenas com a razão?

─ Claro que não. É impossível. Cada um desenvolve suas preferências e formas de se relacionar com o mundo com base em fatores inconscientes e nas suas próprias vivências.

─ Se fosse só isso, cada um seria único em meio a todos. Ou, no máximo, compartilharia valores semelhantes com quem está próximo. Então, como explicar que muitos milhões de pessoas, nos mais diferentes cantos de todo o mundo, apesar de culturalmente muito diferentes, tenham ações, pensamentos e desejos muito parecidos ao mesmo tempo? É impossível que seja coincidência. É muita ingenuidade pensar que uma “padronização” neste nível possa ser apenas acaso.

─ Tem lógica o que você está dizendo. ─ Fala Caíco depois de refletir um pouco sobre o assunto.

─ Em vez de nós mesmos dizermos, fazermos e pensarmos, damos a outros o poder de pensarem por nós e de mexerem com nossos sentimentos e nossas emoções. Nós nem os conhecemos, apenas os vemos numa tela representando personagens que não têm nada a ver com as pessoas reais. Nem conosco. Não fazemos isso com consciência, nem com permissão explícita, mas quando dedicamos nossa atenção a isso durante várias horas por dia. E assim, deixamos de viver a vida real, a nossa, e deixamos de agir e de pensar por nós mesmos. Em última análise, deixamos de viver nossas vidas e acabamos vivendo as vidas dos personagens que outros colocaram na nossa frente.

Enquanto isso, o garçom já havia chegado com os chopes e ficou se demorando para servi-los para ouvir o que eles falavam, pois o assunto lhe interessava. Ele não se contém e entra na conversa.

─ Vocês me desculpem a intromissão, mas o moço aí está certo. Tudo isso faz parte de um grande plano para preparar a humanidade para um próximo estágio da civilização, quando todos precisarão ficar confinados numa espécie de bolha de sobrevivência quando o ambiente externo estiver impróprio para a vida humana. Assim, ninguém vai estranhar, pois todos já estarão acostumados a viver em ambientes fechados, como os shoppings, e a passar a maior parte do tempo em frente a uma tela de computador, tablet, celular ou TV. E a informação instantânea e abundante continuaria atuando como o veículo massificante. Pouca coisa mudaria com relação à vida que muita gente já vive hoje.

Zoinho havia interrompido o caminho do seu copo antes de ter chegado à boca e fica ouvindo o que o garçom fala.

─ Poderá haver várias destas bolhas. E as pessoas poderão se relacionar com as que vivem nas outras bolhas por meio de perfis em redes sociais, utilizando-se de avatares, muitas vezes falsos. Exatamente como acontece hoje. E tudo continuaria como está, apesar de o mundo ter se tornado completamente diferente.

Os três estão paralisados, olhando fixos para o garçom. Sem saber se estava agradando ou não, ele pede licença e se retira.

─ Caramba, esse é mais doido do que eu... ─ Caíco comenta.

─ O que ele diz faz parte da teoria da conspiração. ─ Pardal responde. ─ Segundo ela, todas as ações, tudo o que acontece, faz parte de um plano predeterminado para atingir objetivos específicos, elaborado por elites ou classes dominantes ou com poder real.

Os três se olham, refletindo sobre o caso, até que Zoinho retoma a palavra.

─ O garçom viajou um pouco, mas não se pode dizer que esteja errado. A manipulação realmente ocorre. Tanto com relação ao lado emocional como por meio da informação instantânea. Hoje há uma infinidade de informações e de conhecimentos que podem ser acessados instantaneamente, porém, a maioria das pessoas é desinformada e insegura sobre quase tudo. A informação se tornou descartável e a sua busca virou vício. Busca-se o tempo todo o que no momento seguinte não servirá mais para nada. E para quê?

─ Ora, informação é informação. ─ Argumenta Caíco. ─ É impossível viver desinformado. Por isso a busca permanente das informações: para estar a par de tudo o que interessa.

─ E eu pergunto de novo: para quê? Para que serve informações e mais informações, leituras e mais leituras, se ninguém dá uma pausa para pensar sobre o que coletou? De que adianta passar o tempo inteiro procurando e encontrando informações que serão descartadas em seguida? Qual é o proveito de se entulhar a cabeça com uma infinidade de coisas que nem chegarão a ser pensadas. Este bombardeio de informações só serve para que sejam construídos conceitos coletivos predeterminados por aqueles que têm interesse nisso. Arthur Schopenhauer, filósofo alemão do século 19, já criticava duramente, com seu jeito tosco e direto, quem lia o tempo todo e não parava para pensar sobre o que havia lido. Segundo ele, isso impedia o desenvolvimento de pensamentos próprios e o julgamento do que havia sido lido.

Zoinho aguarda que Caíco ou Votaire digam alguma coisa, mas eles permanecem calados. Então, continua.

─ Eu acho que ele está certo. Tanto em 1800, como hoje. Só que, hoje, as mídias se multiplicaram. O que Schopenhauer falava sobre a leitura, vale hoje para tudo o que é divulgado em todas as formas.

─ Até pode ser, já que ele falava de comportamento humano. ─ Argumenta Pardal. ─ Mas eu ainda acho que você está exagerando. Estes chopes não devem estar lhe fazendo bem...

─ Ah, é? Então veja aqui mesmo. Olhe como estão aqueles ali naquela mesa.

Zoinho aponta com o braço diretamente para uma mesa em frente.

─ Que é isso, cara! Quer arrumar confusão? ─ Adverte Caíco.

─ Pode olhar direto para eles. Ninguém vai perceber.

Na mesa havia cinco pessoas, todas concentradas nos seus smartphones e digitando e lendo mensagens. Realmente, nenhuma delas percebe que haviam se transformado no assunto daquela roda.

─ Eles estão assim há um tempão. Ninguém conversa com ninguém. Talvez até estejam conversando um com o outro usando os telefones. Eles estão fisicamente reunidos para ficarem distantes mental e emocionalmente! Chega a ser um vício, uma necessidade, checar a todo momento as postagens nas suas redes sociais. Vocês acham isso saudável? Ou “normal”?

─ É... Neste caso, parece que eles perderam o controle da situação e se deixaram dominar. ─ Pondera Pardal.

─ E situações como esta são cada vez mais comuns. ─ Completa Caíco, antes de Zoinho continuar.

─ Se quiséssemos definir aqueles que agem assim, poderíamos chamá-los de “autistas tecnológicos”, pois vivem boa parte da vida isolados num mundo que não é real, num faz-de-conta que tem um sentido particular e diferente para cada um. Mas parece mais que este comportamento aparentemente alienado das pessoas é apenas uma etapa necessária. Talvez pudéssemos compará-lo ao movimento de um pêndulo, onde um peso amarrado a uma corda se desloca de uma posição, onde as informações são escassas e difíceis de serem obtidas, como era há alguns anos, para a posição oposta, onde há abundância de informações de todo tipo e de toda qualidade e muita facilidade para acessá-las. No movimento do pêndulo, seguindo a força natural que o impulsiona, ele vai de um extremo ao outro, passando direto pelo meio, que seria o ponto de equilíbrio entre as forças opostas.

Pardal e Caíco ouvem com atenção e Zoinho continua.

─ Neste ponto central, a tecnologia e a informação deixariam de ser o fim em si e passariam a ser os meios pelos quais seria possível uma maior proximidade entre as pessoas. No ponto de equilíbrio, as pessoas se comunicariam olhando nos olhos quando estivessem frente a frente e sempre privilegiariam este tipo de contato, ligando-se efetivamente às pessoas que estivessem à sua volta. Continuariam utilizando todos os tipos de tecnologias, mas sempre as deixando para as ocasiões nas quais não fosse possível manter um contato físico direto ou utilizando-as para realmente promover a aproximação real. Ou seja, comunicação consciente.

─ É verdade! ─ Concorda Pardal. ─ As redes sociais virtuais nunca morreriam. Pelo contrário, elas se expandiriam cada vez mais, mas a prioridade passaria a ser o relacionamento humano pessoal, o abraço fraterno, o olho no olho, pois estes são os meios de comunicação mais eficazes. Tanto que, muitas vezes, não é necessário sequer uma palavra para o pleno entendimento entre duas pessoas em contato direto.

─ Pois, é! ─ Retoma Zoinho. ─ E o nosso pêndulo continuará oscilando entre um extremo e outro, mas cada vez com menos força e se aproximando mais e mais do centro de equilíbrio. Até, finalmente, parar.

Zoinho interrompe sua exposição e aguarda que os amigos reflitam, até que Caíco se manifesta.

─ E então, o equilíbrio terá se estabelecido. Não mais lutas e opostos. Não mais disputas e contradições. Apenas a paz e a confraternização em torno de unanimidades alcançadas a duras penas.

─ Será? ... ─ Questiona Pardal. ─ Será possível que, um dia, isso aconteça?

─ Não. ─ Responde Zoinho de imediato. ─ No momento em que houver um equilíbrio estabelecido, um novo ponto de conflito surgirá e movimentará o pêndulo novamente, estabelecendo novos opostos e passando várias vezes pelo meio, pelo ponto de equilíbrio, até que a força do movimento se esgote e ele acabe parando ali novamente, em equilíbrio. E, novamente, uma outra força entrará em ação movimentando o pêndulo para novos extremos.

Zoinho arregala os olhos, mais do que já são, e encara os amigos antes de continuar.

─ Isso nunca parará. É da natureza humana a inquietude, o desconforto com o que já estiver estabelecido. A humanidade anseia pelo que está mais adiante, pelo que ainda não foi experimentado, pelo novo, pelo que poderia representar, ou parecer, alguma evolução. É esta a natureza humana.

Zoinho encara os amigos com um sorriso no rosto, triunfante com o que considerou ser um belo raciocínio. Caíco e Pardal também sorriem e os três levantam seus copos para um brinde em comemoração ao desfecho das suas ideias.

Parecia que ali estavam se formando cidadãos conscientes e preparados para resistirem aos ataques subliminares de seja lá quem for. Estão em êxtase e orgulhosos por terem atingido um patamar consciencial que os posicionam num nível acima da maioria.

Porém, quando Zoinho ia comentar algo sobre o que estão discutindo, Caíco e Pardal o interrompem para mostrarem que a TV havia sido ligada e que estava iniciando um programa que eles esperavam assistir.

Pouco a pouco, a conversa no bar vai diminuindo, já que boa parte dos que estão ali passa a prestar atenção no programa da TV.

Zoinho observa seus amigos e o ambiente que vai se formando no bar e resolve ir embora. Chama o garçom para pagar a sua conta e, enquanto espera, fica ouvindo na sua mente a música “Admirável chip novo” (Pitty).

 

Pane no sistema, alguém me desconfigurou
Aonde estão meus olhos de robô?
Eu não sabia, eu não tinha percebido
Eu sempre achei que era vivo
Parafuso e fluído em lugar de articulação
Até achava que aqui batia um coração
Nada é orgânico, é tudo programado
E eu achando que tinha me libertado.
Mas lá vem eles novamente e eu sei o que vão fazer:
Reinstalar o sistema

Pense, fale, compre, beba
Leia, vote, não se esqueça
Use, seja, ouça, diga
Tenha, more, gaste e viva

Pense, fale, compre, beba
Leia, vote, não se esqueça
Use, seja, ouça, diga…

Não senhor, Sim senhor, Não senhor, Sim senhor

Mas lá vem eles novamente e eu sei o que vão fazer:
Reinstalar o sistema.

 

Depois de pagar sua conta, Zoinho levanta-se para sair, olha ao redor com um leve ar de desprezo e pensa:

─ Teleguiados...

 

 


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