Fantasmas urbanos

É madrugada. Está frio. A rua está deserta e quieta. O único movimento visível é o nevoeiro passando muito lentamente pelas luzes dos postes. Como se as minúsculas gotinhas de umidade condensada estivessem percorrendo uma fila para se mostrarem uma a uma a algum improvável observador.

Na noite, um silêncio absoluto. Nem os cachorros da vizinhança latem. Chega a dar um certo medo! Mas, medo de quê? Se a rua está deserta, se não há nada lá, nem qualquer ameaça, não há motivo para medo, não é mesmo? Pode ser, mas, muitas vezes, nossos maiores medos vêm daquilo que não vemos, do que não conhecemos, do que não nos é palpável.

É aí que entra a nossa imaginação, que se junta com o que já ouvimos, e cria as histórias que cultivamos dentro de nós.

Dizem que, à noite, as almas penadas saem por aí, perambulando pelas ruas. Mas por que elas saem só à noite? Teriam medo do sol? Ou preferem o sossego da noite? E por que os fantasmas têm que ser almas penadas? Elas têm que penar por quê?

Eu nunca vi estas almas que dizem andar por aí. Mas não duvido. É como dizem: em bruxas, não acredito, mas que elas existem, existem.

Fico tentando imaginar como seria a movimentação destas almas. Sairiam elas andando por aí sem rumo, sem chegar a lugar algum, até o dia clarear, e desapareceriam com a chegada do sol para voltarem a surgir na noite seguinte? Não! Não deve ser assim. Seria muito automático e sem sentido. Andar para lá e para cá só por andar para lá e para cá não é algo razoável nem inteligente. Talvez pudessem estar procurando algo, ou alguém, ou algum lugar. Quem sabe?

Talvez cada uma delas tenha o seu próprio motivo. Ninguém que diz já ter visto algum destes fantasmas pelas ruas sabe dizer dos seus motivos para ficar andando sem rumo ou objetivo. Nem mesmo para aqueles que repetem os mesmos caminhos, às mesmas horas, durante décadas.

Pelos relatos mais comuns, estes andarilhos noturnos parecem ser bastante solitários. Não há relatos de já terem sido vistos reunidos em alguma esquina conversando. Ou, juntos, confraternizando de alguma maneira. Parecem viver tristemente e isolados uns dos outros, talvez centrados apenas em seus dramas pessoais.

Seja como for, permanecem os questionamentos. Por que teriam que sair para as ruas e ficar perambulando perdidos por aí? E por que só à noite? E por que, afinal, isso nos mete medo? Só porque este é um mundo que não conhecemos?

Pensando bem, na dúvida, é melhor se manter afastado, evitar o contato com estes seres tão estranhos. Sabe-se lá o que pode acontecer... Dizem que pode ser perigoso.

Mesmo assim, às vezes eu me imagino no lugar de um destes fantasmas. Se o sol não atrapalhasse, de dentro do meu esconderijo diurno, observaria os “viventes” passando de um lado para outro. Eu os veria cada um demonstrando um comportamento diferente, mas todos eles, todos os dias, parecendo perambular sem rumo, em busca de algo que nem parecem saber o que seja.

Do meu observatório, veria sempre as mesmas pessoas passando, repetindo horários de idas e vindas, às vezes por vários anos. Poucas vezes veria alguém diferente. Ou alterando sua rotina.

Uns mais apressados, outros mais tranquilos, mas todos parecendo meio que robotizados, imersos em si mesmos e desconectados do resto. Como que cumprindo um papel que lhes foi atribuído, ninguém sabe por quem. Nem para quê. Talvez, até, perseguindo objetivos, mas que, provavelmente, não fossem capazes de lhes trazer paz nem felicidade.

Então, talvez eu lembrasse do tempo em que ainda não era fantasma. E me espantasse com o fato de que a maioria das recordações fossem das dificuldades enfrentadas, como se estes momentos fossem os mais marcantes.

Teria me lembrado da vida corrida, cheia de compromissos a atender, de metas a superar e de modelos a se enquadrar. Dos relacionamentos de ocasião, conforme os interesses do momento. Das lutas, das discórdias e das disputas, a maioria das vezes por coisas sem valor ou importância. Do distanciamento entre as pessoas, apesar de viverem lado a lado.

Eu sentiria dó destes pobres coitados pelas suas vidas miseráveis. Porém, estaria ciente de que foram eles mesmos que cavaram este buraco onde se enterraram. E que, se tivessem uma nova oportunidade para fazerem diferente, provavelmente iriam repetir os mesmos erros. Vezes e vezes seguidas.

E, talvez, pensasse: por que será que as existências dos fantasmas e dos viventes nunca se harmonizaram? Afinal, suas vidas e a forma como andam pelo mundo são tão parecidas.

Em busca de uma centelha de luz que pudesse me dar alguma esperança de explicação, contemplaria a fisionomia dos viventes que passam. Mas veria tristeza, desamor, egoísmo. E me assustaria. E teria entendido o motivo de viverem em mundos separados. Com certeza, os fantasmas viventes diurnos não conseguiriam entender os fantasmas noturnos.

Como fantasma da noite, eu me recolheria mais ainda no meu esconderijo diurno e chegaria à seguinte conclusão:

Pensando bem, na dúvida, é melhor se manter afastado, evitar o contato com estes seres tão estranhos. Sabe-se lá o que pode acontecer... Dizem que pode ser perigoso.

 


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