DR com tecnologia

 

Ela andava questionando há algum tempo as atitudes dele com relação a uma série de coisas. Mas vinha guardando seus pensamentos até que surgisse uma boa oportunidade para discutir a relação.

Se não tinha falado nada até agora, não era por falta de vontade. Era porque não havia se criado o ambiente propício para isso. Porque uma DR precisa de condições para iniciar e ir até o fim.

É nesta hora que a mulher coloca em debate tudo o que acha que está problemático no relacionamento do casal e fala tudo o que estiver preso no seu íntimo. O tempo é uma questão secundária. Quanto mais importância ela der para o relacionamento, e quanto mais graves ela achar que são os assuntos que pretende abordar, mais tempo durará a DR.

Uma DR é um terror para o homem. Até hoje, não se tem notícia de que alguma DR tenha sido iniciada por um homem. Sempre foi iniciada pela mulher e vem de surpresa, não importando o que ele esteja fazendo ou pretendendo fazer. E a atenção que ele der ao assunto mostrará a ela a importância que o relacionamento tem para ele.

E não importa se o homem acha que uma questão pode ser resolvida plenamente em dois minutos ou em duas frases. Para a mulher, isso é apenas mais um sintoma da superficialidade masculina, que não consegue enxergar as várias nuances que estão envolvidas em qualquer questão que envolva o relacionamento entre duas pessoas.

─ Carlos Alberto, nós precisamos conversar.

A convocação de Márcia caiu sobre ele como uma bomba. Ele pressentiu o que vinha pela frente pelo tom da sua voz. E por ter sido chamado pelos dois nomes. Se tudo estivesse bem, ela o teria chamado de Cacá. Ele já conhecia a forma como ela chegava para iniciar uma DR. Não era algo frequente, mas sempre começava do mesmo jeito.

Carlos Alberto estava teclando no seu celular, respondendo uma postagem que havia chegado no seu perfil. Gelado, ele respondeu que já lhe daria atenção, assim que terminasse de postar a mensagem que estava digitando.

Márcia esperou um pouco e, como estava demorando mais do que estava disposta a esperar, já começou a perder a paciência.

─ Carlos Alberto, preciso falar com você. Larga esta merda e me dá atenção!

Márcia tinha o pavio curto e não tinha vergonha de ser desbocada quando ficava brava.

─ Já estou terminando. Calma! Pronto, já postei. Pode falar.

─ Como assim “pode falar”. Você acha que vai ficar aí me dando ordens? Eu falo sempre que eu quiser e não vai ser você que vai me dizer quando eu posso ou não posso falar.

─ Não foi isso... ─ Carlos Alberto falou em tom apaziguador para a conversa não descambar para uma discussão. ─ Eu só quis dizer que já estou liberado para dar atenção a você. Só isso. Pode falar.

Desta vez, o “pode falar” teve um tom provocativo sutil, mas Márcia resolveu ignorar. Respirou fundo e recuperou o equilíbrio e a dignidade antes de começar a expor calmamente o que lhe incomodava.

─ Carlos Alberto, não sei se você notou, mas algumas coisas estão diferentes desde que nos conhecemos. Antes, você se preocupava mais com...

TRRRRIIIMMM...

─ O que é isso, Carlos Alberto?

─ É o novo toque que programei no celular para me avisar quando alguém postar algo no meu perfil. Olha...

─ KKKK, Carlos Alberto?

─ É que eu postei algo engraçado.

─ Mas todo este esparro para avisar que alguém postou “KKKK” na sua postagem?

─ O programa não diferencia um KKKK de uma frase com sentido. Ele apenas avisa quando alguém posta qualquer coisa. Você sabe...

─ Sei, Carlos Alberto. Sei também que o programa não faz diferença entre o idiota que posta algo e os idiotas que respondem.

─ Não começa, Márcia! Se a conversa começar a ir por este caminho, nós sabemos muito bem onde...

TRRRRIIIMMM...

─ O que foi desta vez? Mais um KKKK?

─ Não... Desta vez foi um HAHAHAHA.

─ HAHAHAHA, Carlos Alberto? HAHAHAHA? O pessoal que vê tuas postagens não tem cérebro para escrever algo inteligente? Sim, porque para escrever só KKKK e HAHAHAHA não precisa nem ter cérebro. Qualquer acéfalo pode fazer isso!

─ Qualquer o quê?

Márcia ficou olhando perplexa para Carlos Alberto. Até então, ela ainda não havia descoberto que ele não sabia o significado da palavra “acéfalo”.

─ Ah, deixa pra lá... Vamos voltar ao que eu quero lhe falar. Nós precisamos...

TRRRRIIIMMM...

─ De novo, Carlos Alberto? Assim não é possível! O que é desta vez? Mais um KKKK ou HAHAHAHA?

─ Nenhum dos dois. Agora é diferente. É um HUAHUAUHAUAHUAHUAHUAH...

─ Ah, bom! Agora, sim... A originalidade do que estão colocando na sua postagem é impressionante. É uma risada bem comprida esta, não é? Provavelmente o oposto da inteligência de quem a postou.

─ Mas não é só isso. Tem mais. Também escreveram: “Vc eh d+”.

─ “Vc eh d+”, Carlos Alberto? E você é demais, mesmo, Carlos Alberto? O que você postou é de sua autoria, pelo menos?

─ Claro que não. Alguém enviou para mim e eu postei.

─ E teve a cara de pau de postar algo sem identificar o autor, né? Quando não se identifica o autor, fica subentendido que a autoria é de quem postou.

─ Eu não tive esta intenção. Não sei quem é o autor. Já recebi assim. Você está implicando com a minha postagem só porque ela está bombando. Está com inveja...

─ Pois sim! Poderia ter inveja se os seus seguidores não fossem todos acéfalos!

─ Não fossem o quê?

Márcia não respondeu. Apenas ficou olhando-o com ar vitorioso, saboreando a sua vingança por ele ter achado que ela o invejava.

─ Márcia, estamos nos desviando do que você queria falar comigo. Lembra? Vamos voltar ao início?

Márcia até já havia perdido um pouco do interesse pela DR. Já começava a pensar que aquele relacionamento não tinha mais jeito. Mas relevou. Respirou fundo novamente e se aprumou antes de recomeçar com alguma solenidade.

─ Vamos lá, então... Vamos tentar mais uma vez. Carlos Alberto, como já falei, as coisas mudaram entre nós desde que a gente se conheceu. Já não é a mesma coisa. Lá no início, sempre que...

TRRRRIIIMMM...

─ Carlos Alberto, desliga esta merda, já lhe falei! Assim não dá para conversar. Será possível que eu vou ter que me submeter ao seu celular e às suas postagens? Será que só vou conseguir falar com você quando eles permitirem? Que inferno...

─ Calma, Márcia! Desculpe-me. Estou desligando o celular. Pronto... Ele não vai mais nos incomodar.

─ Então, como eu estava dizendo...

BLIM-BLIM, BLIM-BLIM, BLIM-BLIM

─ O que foi isso, Márcia? Agora não sou eu!

Era o celular dela avisando que alguém havia postado uma mensagem no seu perfil.

─ Carlos Alberto, agora, você que vá pra P.Q.P., pois eu vou ver o que postaram no meu perfil.

Márcia foi para o quarto e se trancou lá. Não falou mais com Carlos Alberto durante o resto do dia. Só se encontraram na manhã seguinte, quando conseguiram conversar com calma. Os dois haviam dormido pouco naquela noite, refletindo sobre o que estava acontecendo com eles.

E acabaram chegando à mesma conclusão: a melhor solução para eles seria a separação. Poderiam continuar amigos, numa boa, mas a convivência havia se tornado impossível.

Eles tinham incompatibilidade de perfis nas redes sociais.

 


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