Caçadores de sonhos

Olá! Meu nome é Songóia Sók Micovski.

Eu sou emborniano. Sim, emborniano! Como assim, o que é isso? Ora, quem nasce na Embórnia é emborniano. Bem, está certo, talvez você ainda não conheça a Embórnia. Então, antes de qualquer coisa, vou falar um pouco do meu país.

Diz a lenda que, há muito tempo, um pequeno pedaço de terra, um istmo, se separou do continente depois de várias explosões nucleares malsucedidas. Este pedaço de terra deu origem a um país que ficou conhecido como Sbórnia.

A história da Sbórnia já foi contada durante trinta anos em quase todos os teatros num ritual conduzido pelos grandes pajés sbornianos Nico Nicolaiewski e Hique Gomes. Esta celebração ficou conhecida por todos pelo nome “Tangos e Tragédias”. Só deixou de ser apresentada quando Nico Nicolaievski encheu a paciência e resolveu voltar para a Sbórnia para lá permanecer em retiro espiritual definitivo.

Este pedaço de terra ainda flutua pelos mares, navegando pelo mundo inteiro. Bem, só que já não é mais todo o pedaço de terra original. Hoje, na verdade, existem dois pedaços de terra flutuando pelos mares: o que era a Sbórnia e um outro pedaço menor, que ninguém conhece. Este pedaço menor é o meu país, a Embórnia.

No início, a Sbórnia e a Embórnia formavam uma terra só. Depois de alguns anos navegando pelos oceanos, o povo começou a brigar e a discutir por causa de sistemas políticos e de governo, além de valores éticos e morais. Os ânimos chegaram a tal ponto que, por já estarem acostumados a viver discutindo, qualquer picuinha que pudesse render algum atrito já era motivo para uma nova briga. Era tanta briga, tanta discussão, que se tornou impossível a convivência entre as duas principais correntes de pensamento. O que acabou acontecendo foi que este estado de coisas levou à ruptura do país.

Literalmente! Sem que os cidadãos sbornianos comuns soubessem, foram cavados poços profundos a cada cem metros, de uma ponta a outra do país, formando um serrilhado no solo que o dividia em duas partes de mesmo tamanho. Então, foram colocadas ogivas nucleares a cada cinco poços, que seriam detonadas para dividir a terra em dois pedaços. Assim, cada um poderia fazer o que quisesse com o seu pedaço de terra.

O plano era separar os grupos briguentos conhecidos como “Povo da Teta” e “Povo Sempre Louco”. Cada um deveria ficar numa parte da terra dividida. Os representantes dos dois grupos elaboraram o plano e providenciaram tudo. Mas não conseguiram fazer com que um terceiro grupo que sempre atuava por fora, o “Maracutaia, Dinheiro e Bens”, se definisse em apoiar um ou outro.

Alguns deste terceiro grupo manifestavam apoio ao primeiro grupo e os outros ao segundo. Era jogo ensaiado, pois assim eles sempre estariam juntos no poder, fosse com quem fosse. Então, os componentes deste grupo aproveitaram a confusão que acontecia e se espalharam por toda a terra para poderem exercer influência nas duas áreas que iam surgir.

Em nome de um projeto maior, e sabendo que cada um deles iria precisar dos componentes do terceiro grupo para poderem governar, os membros do “Povo da Teta” e do “Povo Sempre Louco” deixaram tudo por isso mesmo e foram cada um para o seu lado da terra antes da detonação, conforme haviam combinado.

Porém, nem tudo saiu como planejado. Mais uma vez, as explosões nucleares foram malsucedidas. Apenas uma parte das ogivas explodiu. E assim, o pedaço que se separou da Sbórnia ficou em um terço do que havia sido planejado. Um terço da metade é um sexto. Isso significa um pedaço de terra muito pequeno.

Mas nada mais havia a fazer. No momento das explosões, os dois blocos de terra que flutuavam no mar começaram a se afastar. Foi aí que alguém deu o nome ao novo país que estava surgindo. Como aquele pedaço de terra que se separava estava indo embora da Sbórnia, recebeu o nome de Embórnia.

E assim ele é conhecido até hoje. Bem, na verdade, ele não é conhecido. Ele é desconhecido, já que ninguém sabe da sua existência. Mas existe. Eu próprio, que estou lhes narrando esta história, dou meu testemunho disso. Falo (no sentido de falar), logo existo. E se falo (no sentido de falar) e existo e sou habitante da Embórnia, então a Embórnia existe.

Muito filosófico isso, mas vamos ao que interessa.

Depois das brigas e da separação das terras e dos briguentos, o povo não tinha mais motivos para brigar e foi possível reestruturar o país e a sociedade de uma forma a dar atenção ao que fosse o melhor para todos. E, já que não precisavam mais gastar suas energias brigando uns com os outros, foi possível construir um bom ambiente social para todos viverem felizes e em paz.

O primeiro desafio foi estabelecer a forma de governo. Para que não houvesse mais brigas, todos concordavam que as diferentes formas de pensar precisavam ser contempladas. E assim, ficou estabelecido na sua constituição que a Embórnia seria um reino imperial republicano anarquista. E assim é até hoje.

Agora que já apresentei meu país, posso falar um pouco de mim. Moro em Embórnia City. Embórnia City é a única cidade do país. Não há espaço para outras cidades. A terra é muito pequena.

Minha idade é... não sei! Talvez 300, 400, 500 anos. Não sei. Na Embórnia nós não contamos os anos de vida. Não é necessário. A gente vive muito tempo porque a morte lá é muito lenta devido à formação típica do solo do nosso país, que irradia energias vitais muito poderosas.

Quando estamos nos movimentando a morte não consegue nos alcançar, pois somos mais rápidos. E quando dormimos, ela não consegue nos enxergar. Mesmo assim, às vezes ela consegue surpreender alguém que anda distraído.

Eu piloto um avião de caça. Mas não é um avião usado para guerra. Na Embórnia não nos preocupamos com a guerra. Até mesmo porque ninguém sabe que a Embórnia existe. E, mesmo que soubesse, não conseguiria chegar lá. Por isso, nem forças armadas nós temos. Elas foram abolidas pelo nosso amado rei-imperador-presidente-nada vitalício.

Mesmo sem guerras, temos vários aviões de combate de última geração. Mas os pilotos, como eu, não caçam outros aviões. Nossos aviões são equipados com uma grande rede que é arrastada pelos ares e que serve para que possamos capturar os sonhos que as pessoas perderam ou esqueceram e que andam vagando por aí.

Os sonhos precisam ser recolhidos antes que morram. Para isso, saímos todos os dias explorando os espaços aéreos de todo o mundo tentando recolher o maior número possível deles. São tantos, e de tantos tipos, que esta atividade passou a ser a principal fonte de trabalho da Embórnia.

Todos se empenham ao máximo neste trabalho, pois sabem que a vida humana não tem qualquer sentido sem os sonhos de cada um. Afinal, são apenas os sonhos que podem motivar alguém a se esforçar para dar saltos de um patamar de vida a outro melhor. De um nível de satisfação a outro mais elevado. De um determinado grau de evolução para outro superior.

E então, depois que os capturamos, nós os levamos aos nossos Viveiros de Sonhos. Existem muitos Viveiros de Sonhos na Embórnia. Lá, os sonhos são plantados em vasos com nutrientes especiais, recebem os cuidados necessários e ficam aguardando que aqueles que os produziram, que os sonharam, venham resgatá-los.

Bem, parece estranho plantar sonhos, não é? Realmente, é bastante estranho. Mas, se alguém tiver uma ideia melhor, por favor, avise-nos. Estamos aceitando sugestões. Até agora, esta foi a melhor forma que encontramos para mantê-los vivos.

Porém, infelizmente, apesar de todos os nossos esforços, poucos serão os sonhos que sairão dos viveiros. A grande maioria deles continuará lá para sempre, pois quase todos que um dia já sonharam acabam esquecendo, abandonando ou desistindo dos seus sonhos.

 

 


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